
Há dias em que não se devia sair da cama... E hoje, como ultimamente, foi um desses dias. Confesso que me tem sido difícil exprimir o que sinto e penso, por isso não tenho escrito. Nem sei bem o que vai sair hoje. Mas a noite ajuda-me a relaxar e a pôr as ideias no lugar.
Sei bem que acabo sempre por me repetir naquilo que escrevo aqui. Aliás, acho que não há quem não o faça, principalmente se o blog é algo de muito pessoal, íntimo até, diria. E este meu é algo de muito especial, que se tem prolongado por vários servidores e endereços. É aquele "diário" que eu não escrevo no papel, mas que escrevo aqui, online.
Falo de mim, das minhas experiências, dos meus sentimentos, das minhas atitudes, enfim, de tudo um pouco. É uma forma de desabafar a monotonia (ou não) do dia-a-dia, visto que ter nascido diferente faz-me ter uma forma de ver a vida diferente. Acho que fui obrigada a amadurecer mais cedo, para fazer face às dificuldades da (minha) vida.
Agora, aos quase 35 anos, vejo que aquilo que eu pensava ser uma coisa, é afinal outra. Ou seja, nada (ou quase nada) é como eu pensava que era. Num momento tudo muda, numa fracção de segundo algo acontece, é tudo demasiado mutável. Inclusive as pessoas. Na sua maioria são demasiado mutáveis. Neste aspecto, muito mais os homens que as mulheres.
E eu que o diga. Num dia declaro a um homem uma paixão por ele, que parece ser correspondida, no dia seguinte afinal ele não sente nada por mim. É o eterno paradoxo da mulher transexual: ou se é freira, ou se é puta. Se apenas temos relacionamentos estáveis, namoros, somos freiras (aquelas que conseguem encontrar um homem que realmente as ame e respeite, claro!), se estamos com os homens que queremos, somos putas. Há que realçar o facto de uma grande maioria das trans ter que se prostituir para sobreviver, mas isso não faz de nós todas putas!
E os homens, no fundo, vêem-nos a todas como putas. Objectos sexuais. O fruto proibido. Pela minha experiência pessoal, até hoje não encontrei uma única excepção. Mas parece que há. Pelo menos há mulheres transexuais que conheço que têm relacionamentos estáveis com homens. Logo, e pelos vistos, eu é que tenho tendência para atrair toda a porcaria imunda que existe no universo masculino.
Deve ser o meu karma. Aliás, eu tenho um duplo-karma: nasci no corpo errado, e só encontro homens errados. O que visto por um certo prisma, até pode ser curioso. Porquê eu? Porquê comigo? Não há homens de jeito neste país da treta? Bem, realmente, num país da treta só deveriam existir homens da treta. Pseudo-homens. Não assumem nada, fazem tudo às escondidas. A família, os amigos, as mulheres, as namoradas... O que iriam pensar? Que eles namoravam ou tinham um caso com uma mulher transexual? Escândalo!
No entanto, algumas de nós conseguiram encontrar pérolas... Eu fiquei-me pelos porcos. Nenhum, sem excepção, prestava para alguma coisa. Nem um ou outro que eu até referi aqui, que foram importantes por algo. Demonstraram ser tão básicos e insignificantes como todos os outros. Pois é, as pessoas revelam-se, mais cedo ou mais tarde.
E eu vou-me revelando aqui, para quem quiser ler. Pelo menos enquanto estiver viva, e estes meus karmas não tenham ido comigo. E convém frisar que estou sozinha e sou celibatária por opção, ou por falta dela. E não me arrependo nem um bocadinho. Mas vou fazer como a minha melhor amiga, Eduarda, diz: ter calma e paciência, pois o que tiver que ser será.
Lara-A-Escura