quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Escura...


Há noites e dias em que nos sentimos assim. Sentimo-nos escur@s. Quase sem razão, quase sem motivo, camufladas dentro de nós as existências dessa escuridão. E é assim que me sinto hoje, que me tenho sentido.

É como se tivesse um turbilhão de coisas para deitar para fora, como se o meu peito fosse explodir de dor, de sofrimento, de desilusão... Como se eu não fosse outra coisa além de um enorme saco de pancada e, ao mesmo tempo, um enorme saco que se encheu de sentimentos. O saco de pancada serve para todos aqueles que não me respeitam, e o saco que se encheu serve para todos os que despejaram em mim os seus sentimentos, ou falta deles.

Estou desiludida com o mundo. Desiludida comigo própria por não reagir como deveria reagir às agressões externas (e internas). Desiludida por nada estar a correr como eu gostaria.

Os meus pais agem com um manto de desgosto e vergonha a quem eu sou. E isso dói-me. E muito. Dediquei-me a eles durante os meus 34 anos de vida, e agora, que preciso deles mais do que nunca, viram-me as costas e dizem-me "não". Nada que eu não estivesse à espera, e até nada que eu não compreenda, devido à idade e educação de ambos. Mas estar à espera não significa aceitar placidamente essa atitude. E eu não aceito. Choro.

No meu interior dá-se a guerra dos mundos. Dos meus mundos. Tão grandes e infinitos como o próprio infinito. Entre o que sou fisicamente agora, e do que poderei ser em breve. Mas um breve um pouco longo. Sim, que nada se faz de um dia para o outro. E eu castigo-me. Puno-me por não ter nascido biologicamente mulher, e por me sentir a "criar uma personagem", mais do que a ser eu própria. Enfeito-me para o olhar de quem? Para o meu, no espelho, ou para o dos outros?

E estou sozinha emocional e amorosamente. Isto não ajuda nada, devem pensar vocês, e é verdade. Mesmo que eu não queira reconhecer, é a verdade nua e crua. Até os médicos no hospital me disseram que se estivesse preenchida emocionalmente isso me ajudaria e muito. Mas a realidade é que não estou. Não passo de uma celibatária auto-induzida, que se martiriza dia-a-dia por estar sozinha. Será que isto faz sentido? Talvez não, se virmos que sou uma mulher como outra qualquer. Talvez sim, se eu me vir como uma criatura aberrante de androginia, e queira quebrar todos os espelhos em que me vejo reflectida.

Nestes dias de amargura, apenas a presença amiga de uns e umas pouc@s amig@s aplacam a minha dor. Estou muito cansada, apesar de fisicamente e biologicamente estar a recuperar bem. Só que o meu cansaço é outro, e já nem sei o que fazer, além de dormir demais. Sei que não devo pensar tanto nas coisas, mas não consigo evitar, faz parte da minha natureza. Como faz parte da minha natureza ser negativa, pessimista, e, acima de tudo mulher. Apesar de escura...

Lara-A-Escura

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Lara,

Apesar de te "conhecer" há muito pouco tempo, queria deixar-te aqui uma palavra de conforto e de apoio, na esperança de que os dias escuros e tristes desapareçam e se tornem dias de muita luz e alegria.
Um beijo grande

Sali

22:06  
Blogger Unknown said...

Bem, como não podia deixar de ser, aqui fica o meu comentário. Correndo o risco real de me repetir, sabes que podes contar com os teus amig@s, ou pelo menos com alguns deles sempre. Compreendi perfeitamente o teu post, sei como te sentes, sei as tuas mágoas e feridas. E sinceramente só posso dizer que dias melhores virão, kida, somente tens que aguentar até as tempestades passarem. E sabes bem que sempre podes contar comigo. Como sempre muito bem escrito, este post...

15:27  
Anonymous Anónimo said...

Sei como doi a incompreensão desses seres que tanto amamos, os nossos pais, mas alimente sempre a esperança que o amor deles um dia os fará despertar e pôr de lado todas as convicções sociais e preconceitos face ao amor que sentem por você, a filha deles. Meus pais conseguiram vencer essa barreira e aceitar-me como lésbica Deus queira que os seus um dia também façam o mesmo. Continue a resistir à pressão da sociedade, pois você está certa e é uma mulher em pleno e essa sociedade castradora e ignorante é que está ainda na pré-história da humanidade e completamente errada.
Black Bird
www.civilizacoesnasombra.blogger.com.br

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